domingo, 18 de maio de 2014

O Brasil é macumbeiro

Mulher Africana - Isabelle Vital

"Há uma guerra religiosa acontecendo no Brasil. Não é exagero, é uma guerra mesmo. E aconteceu nestes dias uma das suas batalhas mais bizarras: a primeira instância da Justiça Federal no Rio de Janeiro sentenciou que os “cultos afro-brasileiros não constituem religião” porque suas “manifestações religiosas não contêm traços necessários de uma religião”.

Na visão do juiz, uma religião tem que ter um texto base (ele cita a Bíblia e o Alcorão), uma estrutura hierárquica, e de um deus a ser venerado. Foi o Ministério Público Federal que provocou essa manifestação inesperada, ao apresentar uma ação em que pedia a retirada do Youtube de vídeos de cultos evangélicos que o MPF considerou intolerantes e discriminatórios contra as práticas religiosas de origem africana.

E foi para negar ao pedido de retirada que o tal juiz decidiu que umbanda e o candomblé são não-religiões. O MPF já recorreu, e é impossível que a decisão não seja revertida, por ser inconstitucional. Mas a sentença desse juiz é exemplar. Exemplar não no sentido de correta, mas de expor o centro, o coração da discussão, ao mencionar “deus único”, escritos religiosos e hierarquia constituída como “requisitos”.

Na verdade, se voltarmos à espiritualidade ancestral, veremos exatamente o contrário, ou quase. Mesmo onde há hierarquia (local) empossada em algum tipo de xamã, sacerdote ou pajé, ele é apenas um emissário ou facilitador entre o sagrado e a experiência espiritual individual.

E não o representante de algum monopólio metafísico-negocial, proprietário e gestor da distribuição do produto invisível que é a palavra divina. Os sistemas politeístas, ou que lidam com panteões de entidades intermediárias, como no caso os orixás da tradição africana, são uma descrição mais útil, sutil, variada e interessante da diversidade dos comportamentos humanos.

E em geral menos perigosos politicamente do que os sistemas onde há uma “moral única” que emana de uma fonte divina exterior à experiência dos indivíduos – moral que em geral serve para legitimar os interesses e preconceitos de seus “intérpretes” oficiais, sua hierarquia constituída.

Ao contrário, as religiões que se baseiam na transmissão oral da tradição são temperadas pela experiência viva, justa, dinâmica e amorosa. O griô da tradição africana é um sábio-andarilho, um sábio-da-rua, da vila, um misto de poeta, músico, árbitro e depositário e intérprete da tradição, não um leitor de gabinete, um bedel da palavra, um burocrata do espírito (como se isso não fosse um paradoxo e um impasse).

Essas tradições também costumam ter uma visão mais equilibrada da relação do homem com a natureza, já que o mundo não é um “brinquedo” que deus deu aos seus filhos para usarmos até gastar ou quebrar. Mas um campo de experiências éticas e estéticas no limiar do visível e do invisível, da natureza e do idealizado, do feminino e do masculino. Um mundo horizontal, e não vertical, como essas alucinações brancas monoteístas e repressivas pretendem.

O procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jaime Mitropoulos, autor da ação inicial, comenta nesse mesmo sentido. “A decisão causa perplexidade, pois ao invés de conceder a tutela jurisdicional pretendida, optou-se pela definição do que seria religião, negando os diversos diplomas internacionais que tratam da matéria (Pacto Internacional Sobre os Direitos Civis e Políticos, Pacto de São José da Costa Rica, etc.), a Constituição Federal, bem como a Lei 12.288/10. Além disso, o ato nega a história e os fatos sociais acerca da existência das religiões e das perseguições que elas sofreram ao longo da história, desconsiderando por completo a noção de que as religiões de matizes africanas estão ancoradas nos princípios da oralidade, temporalidade, senioridade, na ancestralidade, não necessitando de um texto básico para defini-las”, disse ele.

É por isso que não me espanta um “juiz”, na pior tradição branca, falar em livro, hierarquia e deus únicos. Esse juiz representa o invasor, o capitão do mato, o neto do dono da capitania hereditária. Eu gosto de dizer que os brancos invadiram a terra dos índios e a encheram de pretos, e agora reclamam que o resultado não está suficientemente branco.

Não está, e não é pra estar, e jamais vai estar. A guerra religiosa não se dá “no” Brasil. Ela se dá contra o Brasil, pois o Brasil só existe como esse laboratório onde as tradições se equivalem e se misturam – e não num delírio nazi de pureza e limpeza européias.

O título “O Brasil é macumbeiro” é uma provocação. Mas quer contemplar três fatos: primeiro, o de que o país, mesmo quando era “a maior nação católica do mundo” (assim dizia a igreja até recentemente, até começar a perder a parada para os neopentecostais), também já era a maior nação espírita e a maior nação de religiões das tradições africanas. Segundo, de que o termo “macumbeiro”, pejorativo, tem que ser hackeado e invertido, como o foram outros termos pejorativos – a trinca punk, funk e junk é um bom exemplo.

E terceiro, e o mais irônico, é que a experiência neopentecostal é um macumbão dos bons, com rituais simpáticos (feitiçariazinhas envolvendo líquidos, escritas, objetos energizados etc), sessões de transe e possessão (como o “falar em línguas”), e todo um jargão não-cristão consolidado, como o uso do termo e da idéia de “encostos”.

Ou seja, um macumbão em nome de quem o nega. Se essa pegadinha é deus quem manda, esse deus é meu inimigo, e não meu pai."

Por: Alex Antunes (jornalista, escritor e produtor cultural)

sábado, 17 de maio de 2014

Caixa Preta da Saúde



Você já ouviu falar sobre a Caixa Preta da Saúde?

Interessante projeto criado em março de 2014 pela Associação Médica Brasileira (AMB) Sociedades de Especialidade, Associações Médicas Regionais, dentre outros parceiros, o "Caixa Preta da Saúde" visa salvar a saúde brasileira, recebendo e compilando denúncias da situação caótica em que se encontra a saúde no Brasil. O projeto é o meio através do qual, todas as pessoas de qualquer lugar e a qualquer hora, podem enviar fotos, vídeos e depoimentos, apresentando as dificuldades enfrentadas na busca por serviços de saúde, públicos ou não.
O Sistema Único de Saúde (SUS), que pela constituição deveria oferecer assistência gratuita e universal à todos os cidadãos brasileiros, é falho. O que o povo identifica é o  grande descaso, pacientes aguardando em filas por cirurgias e exames durante anos, falta de infraestrutra, medicamentos e até materiais básicos. Hospitais e postos de saúde em situação precária, impedindo a sobrevivência dos brasileiros que pagam muitos e altos impostos, mas não possuem os serviços básicos dos quais necessitam.
 
O SUS desativou quase 42 mil leitos nos últimos sete anos, as superlotações em emergências e pronto-socorros comprovam este fato. 
O Ministério da Saúde deixou de utilizar R$17 bilhões em 2012, mas o governo para justificar o caos em que se encontra o setor, afirma que não tem recursos para investir em melhorias.

Esses e muitos outros motivos levaram as entidades citadas acima, a criarem essa ação colaborativa para mapear os problemas da saúde pública do Brasil e estimular a população a denunciar as condições encontradas nos hospitais, postos de atendimento e demais unidades de saúde.

O site e as redes sociais Facebook e Twitter são os canais de interação com o público. Por meio destas ferramentas colaborativas, a AMB espera que todos os brasileiros, trabalhadores da área ou não, pacientes ou não, se unam em prol de melhores condições da saúde em geral.

O site é de fácil utilização. Basta clicar no mapa e enviar a denúncia. A equipe do projeto caixa-preta da saúde fará a análise do material e após esta análise, a denúncia entrará na web. 

A AMB e parceiros não pretendem resolver todos problemas do setor somente com o "Caixa-Preta da Saúde", mas sim mostrá-los como realmente são, dando voz à todos os usuários do sistema público de saúde.

Caixa Preta da Saúde: http://www.caixapretadasaude.org.br/






segunda-feira, 28 de abril de 2014

Casa da Elisa



Música e Imagem na Cultura Colonial Mineira:
                                       
aproximações poéticas e estéticas 

A cultura colonial luso-brasileira oferece uma multiplicidade interessantíssima de abordagens, principalmente devido à grande quantidade de monumentos ainda preservados, desde os primórdios dessa secular empreitada. 

No caso específico de Minas Gerais, além dos monumentos, em algumas localidades, o próprio tecido urbano restou com referências e exemplares materiais que nos reportam a tempos passados.

Na cidade de Tiradentes (MG), isso se vê e se vive, principalmente em datas festivas, como é o caso de Corpus Christi.

Animados pela ocasião, os professores Marcos Hill e Elisa Freixo, organizaram um curso focalizando as artes plásticas e a música, companheiras inseparáveis que, voltadas para Deus, engendraram modos sofisticados de deleitar, emocionar e convencer corpos, mentes e espíritos.

Música, talha, pintura e imaginária, conduzirão participantes por percursos que além de agradáveis, aproximarão de conteúdos fundamentais no processo de formação da cultura brasileira.

O evento acontecerá de 19 a 22 de junho de 2014, durante comemorações da festa de Corpus Christi.

Local: Casa da Elisa Freixo em Tiradentes

Carga horária: cerca de 16 horas distribuídas nos 4 dias
Início - quinta feira 15h 
Encerramento - domingo 12h

Preço: R$350,00 (trezentos e cinquenta reais)


Para o mês de julho, já está programado outro curso.

De 18 a 20 de julho - curso - J. S. Bach, As Variações Goldberg, com Elisa Freixo

Mais informações: efreixo@terra.com.br


  
 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Inverno Cultural 2014

Inverno Cultural 2012
O Campus Centro-Oeste Dona Lindu, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), sediou nesta sexta, 11 de abril, cerimônia de lançamento da 27ª edição de um dos maiores festivais de arte e cultura do país, o Inverno Cultural. O evento está agendado para as 11h, no auditório do campus, e contará com a presença da reitora da UFSJ, professora Valéria Kemp, do pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários, professor Paulo Caetano, coordenador geral do Festival, e do prefeito de Divinópolis, Vladmir Azavedo,  além de autoridades e parceiros locais. Na ocasião a reitora e o prefeito assinam termo de parceria para realização, pela segunda vez, do Inverno Cultural na cidade.

A participação de Divinópolis nesta edição do Inverno Cultural é resultado das diretrizes municipais de fomento à cultura, cujo objetivo é fortalecer a projeção do município no circuito estadual de festivais, um dos mais fecundos do país. Há 27 anos, o Inverno Cultural leva arte, cidadania e cultura, em todas as suas modalidades, a todas as cidades e regiões abrangidas pela UFSJ, que desenvolve um sólido trabalho extensionista desde sua fundação.

Todas as atividades previstas nas sete grandes áreas do festival – arte cênicas, música, literatura, artes plásticas, arte-educação, artes visuais e especiais – são realizadas em centros culturais, praças e demais espaços públicos das quatro cidades onde a UFSJ mantém seus campi. Todas gratuitas.
Tema

A edição 2014 do Inverno Cultural da UFSJ acontece no período de 19 de julho a 2 de agosto, quando suas atividades estarão voltadas para o eixo temático FUTEBOL, como fenômeno de massa, de aglutinação sociológica, de matéria de memória e de espetáculo midiático, concretizado na Copa do Mundo Fifa-Brasil.
Para o pró-reitor Paulo Caetano, a temática transcende a efeméride Copa do Mundo, para se debruçar sobre “diferentes abordagens e posicionamentos relevantes para as culturas contemporâneas, abrangendo o campo das artes, música, comunicação, ciências sociais, esportes, economia, políticas identitárias e das novas sociabilidades.”

A expectativa dos organizadores é trazer o esporte inventando pelos bretões, visceralmente transformado em arte nas terras tupiniquins, para a arena acadêmica, num esforço de integração de paixões semelhante ao empreendido pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que abre suas concorridas conferências ao redor do mundo narrando os lances épicos que singularizam a história do futebol no Brasil, e para quem Pelé foi “disparado o melhor jogador de futebol de todos os tempos, pelo menos deste lado da Via Láctea.”
Opinião também compartilhada pelo professor José Miguel Wisnik que, em seu livro Veneno remédio: o futebol e o Brasil, credita sua “incurável tendência a ver sentido em tudo” ao fato de ter sido exposto, em seus anos de formação, à força e à beleza do futebol da Baixada Santista dos anos 50 e 60, como se aquilo fosse normal. A memória de Wisnik se pauta pela memória daquele jogo lúdico: “Num dia qualquer de 1957, vi numa gazeta esportiva a foto de um garoto que vinha se destacando no Santos. No ano seguinte, esse garoto se chamava Pelé e fazia parte da seleção brasileira, e a seleção brasileira, num domingo infinito que parece a própria final dos tempos, era campeã do mundo. Quando Pelé voltou para a Vila Belmiro – o pequeno estádio do Santos –, já se podia ouvir pelo rádio, no momento em que a bola chegava a ele, um alarido diferente na plateia, um clamor excitado e ansioso, uma marca de sagração.”
E o que dizer das crônicas imortais de Nelson Rodrigues, que ainda hoje inspiram gerações e gerações de cronistas esportivos a buscar definições para o inominável? É deste torcedor fanático do Fluminense a pérola: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana.”

Como se bate um pênalti
Foi a lição que o craque Heleno de Freitas deixou nos gramados do Olympic Clube de Barbacena, onde se exilara para tratamento de terríveis crises nervosas. O ano era o de 1959, e a terapia da fulgurante estrela do Botafogo incluía sua presença nos treinos do time que disputava o campeonato regional da liga profissional. Heleno assistia a tudo impassível, até que a cera na cobrança de um pênalti sacudiu aquela letargia. O repórter Toninho Stefani registrou a cena:
“Heleno, rápido e sorrateiro, levantou-se, passou pelo portão do alambrado, entrou em campo esbravejando. Caminhou em direção à área onde havia sido cobrado o pênalti dizendo: “Vou ensinar como se bate um pênalti!” Enquanto todos o olhavam surpresos e incrédulos, Heleno apanhou a bola e foi colocá-la na marca do pênalti. A surpresa cortou qualquer tipo de reação dos enfermeiros e dos presentes. Heleno mandou que o goleiro tomasse posição. O silêncio caiu pesado sobre o campo. Afastou-se mais ou menos dois metros da bola. Eu olhava maravilhado. De repente, não era o Heleno gordo, desengonçado e sedado que estava ali em pé para bater o pênalti... era o Heleno garra, amor à camisa, cabelos englostorados e elegantemente uniformizado. Parecia cingido por tênue luz azulada. No peito uma Estrela Solitária completava o ornamento de seu corpo. Heleno correu com vagar em direção à bola. Chutou. O goleiro só olhou. A bola correu mansa e suavemente morreu no fundo da rede.
Senti o silêncio gritar extasiado. Somente Heleno se movia, caminhando de volta em direção aos enfermeiros e a seu mundo real. Não sei quem começou a bater palmas, mas todos acompanharam. E Heleno, com passos firmes, antes trôpegos, passou por mim, tão perto e tão rente, que eu vi as lágrimas que brotavam em seus olhos. Muitos outros olhos marejaram-se de furtivas lágrimas, inclusive os meus. Creio que até os deuses do futebol tenham se calado e chorado, arrependidos de terem tirado dos campos aquele outro deus dos estádios. Foram as últimas palmas que Heleno recebeu em sua vida. Morreria quinze dias depois, no hospital. Na hora de sua morte, Deus, o verdadeiro, era o único que segurava suas mãos.”
Como se analisa uma paixão? Como se vive catarse mais intensa? Como se normatiza a gratuidade descompromissada de uma partida de futebol “num mundo ostensiva, extensiva e intensivamente capitalizado”, como se indaga Wisnik? Que o 27º Inverno Cultural da UFSJ nos guie pelos gramados dessa cultura que nos define.

Mais informações: www.invernocultural.com.br

(Fonte: Assessoria de Comunicação UFSJ Campus Santo Antônio)